Obstetrícia

Doppler de artérias uterinas no primeiro trimestre: o que a evidência sustenta

Rastrear pré-eclâmpsia antes que ela se instale é possível — e começa no transdutor.

9 de abril de 2026·3 min de leitura
Obstetrícia

Doppler de artérias uterinas no primeiro trimestre: o que a evidência sustenta

Subtítulo: Rastrear pré-eclâmpsia antes que ela se instale é possível — e começa no transdutor.


A pré-eclâmpsia permanece como uma das principais causas de morbimortalidade materna e perinatal no mundo. No Brasil, os distúrbios hipertensivos da gestação respondem por aproximadamente 15% das mortes maternas. Identificar precocemente as gestantes de risco é uma das estratégias mais impactantes da obstetrícia moderna — e o Doppler de artérias uterinas no primeiro trimestre é peça central desse rastreamento.

O modelo de rastreamento combinado proposto pela Fetal Medicine Foundation (FMF), entre 11 e 13 semanas e 6 dias, integra fatores maternos (história clínica, pressão arterial média, índice de pulsatilidade das artérias uterinas e biomarcadores séricos como PAPP-A e PlGF) para calcular o risco individualizado de pré-eclâmpsia precoce e tardia.

A técnica de aferição do índice de pulsatilidade (IP) das artérias uterinas exige padronização rigorosa. A ISUOG (International Society of Ultrasound in Obstetrics and Gynecology) recomenda que a medida seja feita com a paciente em posição supina, transdutor posicionado no quadrante inferior lateral do abdome, identificando a artéria uterina no cruzamento aparente com a artéria ilíaca externa. O volume de amostra do Doppler deve ser ajustado para cobrir o vaso sem incluir estruturas adjacentes, e o ângulo de insonação deve ser o menor possível.

O valor do IP isolado tem limitações. O estudo ASPRE (2017), publicado no New England Journal of Medicine, demonstrou que o rastreamento combinado seguido de administração de aspirina em baixa dose (150 mg/noite) antes de 16 semanas reduziu em 62% a incidência de pré-eclâmpsia precoce. Esse resultado depende diretamente da qualidade da medida ultrassonográfica.

Um IP aferido de forma inadequada — com ângulo excessivo, amostra posicionada sobre a artéria cervical em vez da uterina, ou sem correção para idade gestacional — pode subestimar ou superestimar o risco, comprometendo toda a cascata de decisão clínica.

O ultrassonografista que realiza essa medida carrega uma responsabilidade que vai além do exame: influencia diretamente a janela terapêutica de prevenção. Um laudo preciso nesse contexto não é apenas técnico — é potencialmente salvador.


Referências:

  • Rolnik DL, et al. Aspirin versus Placebo in Pregnancies at High Risk for Preterm Preeclampsia. N Engl J Med. 2017;377(7):613-622.
  • Defined by the standards of the Fetal Medicine Foundation. "First trimester screening for pre-eclampsia." fetalmedicine.org, 2023.
  • Defined by the ISUOG Practice Guidelines. Defined standards for Doppler assessment of uterine arteries. Ultrasound Obstet Gynecol. 2013;41(2):233-239.
  • FEBRASGO. Protocolo de rastreamento de pré-eclâmpsia no primeiro trimestre. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, 2022.

Mapa Mental — Doppler Uterinas no 1º Trimestre

  • Contexto clínico
    • Pré-eclâmpsia: ~15% das mortes maternas no Brasil
    • Rastreamento combinado entre 11-13+6 semanas
  • Modelo FMF
    • Fatores maternos + PA média + IP uterinas + PAPP-A + PlGF
  • Técnica de aferição do IP
    • Posição supina
    • Cruzamento com artéria ilíaca externa
    • Ângulo de insonação mínimo
    • Volume de amostra adequado
  • Impacto clínico
    • Estudo ASPRE: aspirina 150 mg → -62% PE precoce
    • Medida errada = risco mal calculado = janela terapêutica perdida

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